Olá Familiares, Amigas, Amigos e Leitores.Segue, em primeira mão, meu conto intitulado Noite de São João que faz parte da Antologia Palavreiras Edição 2019, hoje às 18:00 h na FLIP.
Fui uma das autoras convidadas pela editora para participar da obra e fiquei muito feliz em receber esse convite.
Espero que apreciem.

NOITE DE SÃO JOÃO

Naquela noite fria de cerração abaixo do olhar, em um arraial perdido no meio do nada, a jovem zeladora da pequena e singela capela rural de São João da Serra estava concentrada em executar bem suas tarefas para o bom andamento da quermesse que acontecia na pequena localidade.
Tudo corria bem. As beatas rezavam, as crianças brincavam de roda, moças e rapazes trocavam olhares sob a vigilância severa de seus pais; os homens se distraiam nas barraquinhas de jogos, entre um e outro trago para esquentar o corpo e a alma.
O tempo foi passando naquela velocidade acelerada típica dos momentos de lazer. No adiantado das horas daquela noite fria, quando a festa já se encaminhava para o seu final, o inesperado acontece, levantando a poeira da estrada de terra batida, em seu jeep, acompanhado por alguns amigos, eis que chega o belo rapaz.
Não era tão jovem quanto a bela morena de longos cabelos negros, mas esbanjava auto confiança e tinha o charme dos grandes sedutores. A fama que o precedia era de ser um homem de bom coração, mas, também, a de ser um conquistador dos corações das mulheres indefesas.
A bela morena e o recém chegado trocaram o primeiro olhar. Ninguém poderia prever, naquele momento, que o amor iria fazer morada naqueles corações.
Eram outros os tempos. O divórcio não era permitido no país e a sociedade não via com sentimentos de generosidade e aprovação os relacionamentos entre pessoas solteiras e seus pares que já haviam sido casados anteriormente.
A diferença de idade entre ambos era, também, um fator desfavorável ao novo casal que surgia sob as bênçãos de São João.
Mesmo diante de tantos obstáculos, ela enfrentou a oposição de sua família, a resistência inicial da família do seu amado, os preconceitos e as maledicências da época e, com o coração transbordando de amor e coragem, seguiu o seu destino.
O tempo se encarregou de acomodar lentamente as relações familiares. O nascimento da primeira filha não foi o bastante para apaziguar os ânimos; o novo casal precisaria ainda vencer muitas provas.
Aquele homem sedutor não era o mais fiel dos parceiros, mas, paradoxalmente, era um companheiro de primeira grandeza.
A bela morena dos longos cabelos negros precisou de muita fé, persistência e de um amor infinito para superar tantas dificuldades.
Os anos se passaram. Vieram outros filhos. A vida seguiu seu rumo. E, de repente, a velhice chegou trazendo com ela todas as fragilidades humanas.
Cinqüenta anos se passaram, era hora de dizer adeus. Ele partiu para o descanso eterno e ela, de coração partido lhe disse " até um dia na eternidade".
Nos últimos anos, as noites de São João trazem com elas, além de muita saudade, as lembranças de um amor que resistiu ao tempo e deixou como fruto, uma família unida e consciente de que a vida nos é dada para vencermos os obstáculos em defesa dos nossos sonhos e projetos.
Eles poderiam se chamar Maria e José, poderiam ser os pais de muitos de nós. Essa linda história de amor é real, sou um dos frutos gerados por ela.
VALÉRIA REGINA FARIA LEÃO
